A Busca do Intangível 2010

PEDRO CHAGAS FREITAS

A fotografia plástica: uma opção clara. E uma opção que nasce da concepção artística de uma criadora. Em “A Busca do Intangível”, Catarina Machado constrói, em salpicos de arte, a mulher que se faz água, a água que se cobre de alma – a alma que se faz gente.

Numa sucessão de silhuetas plasmadas em azul celeste, em azul céu (em azul sonho), há uma história que se conta, uma história que cresce e remanesce, uma história que é, mais do que a história de uma simples mulher ou de um simples homem, a história de todas as mulheres, a história de todos os homens. A história de todos os humanos.

Dos humanos que são movimento, que são ritmo, que são sucessões de espelhos, de reflexos mais ou menos difusos, de corpos que se cruzam, que se abraçam, que se são – a história de todas as mulheres e de todos os homens: à procura, todos os dias, incansavelmente, de si mesmos. Desesperadamente à procura de si mesmos.

Fragmentos, espaços em branco e espaços preenchidos. Ao longo da obra, a efemeridade – a incontornável efemeridade. A impotência de querer ser, de lutar obsessivamente para ser, para conseguir ser. E, ainda assim, dolorosamente assim, ficar por conseguir: ficar por ser. Passar pela vida sem conseguir ser o que, um dia, se sonha ser, se almeja ser. Passar pela vida sem lhe tocar: sem tocar na vida. Sem ser a vida.

A impotência de ser humano. A impotência de só ser humano. O humano que é, nunca é mais do que isso (nunca será mais do que isso), uma silhueta de si mesmo, uma véspera de si mesmo. O humano que é, nunca é mais do que isso (nunca será mais do que isso), algo que passou, algo que esteve: algo que foi. Algo que se foi.

A mão – a mão como símbolo da insuficiência. A mão frágil de quem não consegue chegar, de quem não consegue tocar. A mão que procura ser força, veículo, ponte. A mão que mexe, que rebusca, que ascende. A mão – como o resto de um corpo que se perde na água que se perde. A mão – e o corpo. Unidos pela vontade, cravados pelo desejo. A mão e o corpo – como a água e o humano. A uma só voz.

A água e o humano, de braço dado, pele na pele, corpo no corpo, em jogos de sombras e reflexos que encandeiam: que enleiam. A água e o humano, juntos, em harmonia. A água e o humano – a uma só arte.

Em busca do intangível.

PEDRO CHAGAS FREITAS

BACK <<