INTERACÇÕES

RUI MASCARENHAS

C’est dire que l’artiste se bat moins contre le chaos que contre le « clichés » de l’opinion (…)
[mais] Le art lutte effectivement avec le chaos,
mais pour y faire surgir une vision
qui l’illumine un instant, une Sensation.

“Deleuze e Guattari – Qu’est ce-que c’est la Pilosophie?”

No inicio tudo será novo e a mão traçará uma dança num espaço que se abre incendiado, à sua frente, em seu redor. Tudo é então já o ritmo de uma vida activa, alegre, cheia, sobrepondo-se em planos e lugares, multiplicando-se em intersecções como se tudo e ainda algo mais coubesse dentro de uma tela onde mergulhamos para nos perder e nos reencontrar … talvez ou nem por isso. Não importa realmente. Tudo vale quando a alma de cheia não sabe ser pequena. A visão embriaga-se então e o traço é já a linha e a mancha é já a cor e há ainda tudo por fazer mais do que por dizer. Fala-se e não é já ou ainda um indivíduo ou uma pessoa. É um lugar em movimento acelerado sobre um fundo de cor que quase se esquece de si. E está vivo como se diz que o mar é uma força viva que nos abre activamente os horizontes.

A intensidade do lugar pôde então deixar-se ser o proliferar do ritmo de quem corre feliz entre a cidade e o oceano.

Mas o olhar irrequieto vê já esse espaço acumular-se em camadas, arrumar-se em relações, distribuir-se pelos limites. A cor torna-se então mais espessa, a linha mais presente, o lugar mais molecular do que atómico. Uma outra viagem se inicia sobre o plano, sobre o branco e o negro, sob novas figuras em diálogo agitado, onde nada fica figurado mas vivo. Há uma nova calma, uma nova ponderação, onde tudo se descobre sob um novo tempo. Não diremos que é o outro pólo do tempo. Apenas isso: um outro tempo, um outro espaço. Uma outra sabedoria do olho, uma nova calma da mão. O traço mantém-se mas sobretudo age para acentuar a linha. A mancha marca ainda bem a sua presença mas é a cor quem define mais claramente o lugar, distribui as figuras sobre o fundo: ela é as figuras como é também o fundo.

Claro que o tempo não é igual. Ele nunca se repete. É essa uma das grandes facetas do tempo: nunca ser igual a si mesmo e transportar no entanto consigo algo que permanece o mesmo enquanto houver algo que muda. Em ambos os mundos experimentamos uma mesma vivência desse espaço aberto pela mão em diálogo com o olho, antes ou depois de todas as palavras, de todos os re-conhecimentos, de toda e qualquer certeza que não fosse a sua própria verdade, a sua própria validade, enquanto mundo que está ai, ainda por abrir, ainda por se fazer, ainda por viver. Toda esta afirmação enérgica do ritmo cardíaco que se contrai e se expande numa repetição que é sempre e para sempre a sua diferença.

Vemos então o tempo querer ser síntese de si mesmo, arriscar sempre e fazer-se caminhos nunca antes trilhados como se fosse ainda e sempre necessário pensar de novo, fazer de novo, experimentar a vida e nunca apenas morrer devagar. Diz-se então coisas íntimas sobre um sujeito que se mantivera até então ausente. Não que fosse apenas a queda num centro e numa ilusão de historias pessoais para contar, algo privado para desnudar em público. É ainda vigorosamente a sensação e não o ronronar das opiniões estetizadas sobre os homens e as mulheres. É a irrupção de signos sexuados, vermelhos e azuis, num meio tanto molecular como físico. São somente um novo plano onde também há moléculas como átomos. Pensa-se. Existe o homem e a mulher. Existem num meio e pelo meio. Há acasalamentos como já os havia nos anéis de cor. Há movimentos de dorsos e ancas como já os havia nas orbitas traçadas. É sim o espaço que ganha em novas dimensões, sem por isso vir dar ao figurado privilégios ou primazias. É a exploração que avança, pede sempre para avançar, para não assentar territórios, repetir colheitas, acomodar-se a sedimentos conquistados. A mão e o olho que se colocam sempre num dialogo renovado

E eis agora que tudo avança uma vez mais por novas terras, novos mundos, novos gestos, novos termos. Nada por aqui se fica encerrado por fronteiras regradas. É a plasticina agora senhores. É o lugar da fotografia senhores. É o vídeo móvel moldado. É a mão e é o olho e é tudo em intensa interacção. Porque parar é deixar de fazer, é deixar de ver, é deixar de sentir o que ainda está por vir. É isso uma vida: amassar a côr e a linha. Ver as manchas e os traços que até a água pode fazer. Porque a mão vê, porque olho age, porque a figura não tem de contar nada mas ser sim o modelar do espaço que habita como uma sombra sem se referir a algo, ou referindo-se a tudo, conforme apeteça ao olhar mais ou menos fabulador, porque a cor é algo que moldamos como se faz o pão e a linha é algo que desenrolamos com o miolo nos recreios da nossa infância.

Ah! Porque a Sensação de viver, de saber e de fazer, será sempre, quando prenha de sentido e de valor, este intenso interagir que se quer sempre maior e mais vasto por ser tão curto!

 

Rui Mascarenhas, Miramar 2011

BACK <<