LINHAS MOVEDIÇAS TERRENOS FORTUITOS

MARIA DE FÁTIMA LAMBERT

“…Quem vem pra beira do mar, ai
Nunca mais quer voltar, ai
Andar por andar, andei
E todo caminho deu no mar…”

“Todos os outros traduzem: o pintor esboça
Um mundo visível para amar ou rejeitar;
Remexendo a sua vida, o poeta alcança
As imagens que irão unir ou magoar ”

Passados cinco anos, as cores e as linhas na pintura da Catarina Machado são viagens, procedentes de diferentes protagonistas: viagens da pintora que as fez; são, também, viagens inevitáveis que eu não adiei. Num e outro caso, resultam de decisões inadiáveis, de percursos irreversíveis e de consequências sustentadas. As viagens materializaram-se.

“Un voyage est une opération qui fait correspondre des villes à des heures. Mais le plus beau du voyage et le plus philosophique est pour moi dans les intervalles de ces pauses. »

Toda viagem é prévia à deslocação; chega-se ao destino sem se sair do lugar de partida. A viagem será precária ou firme, dependendo do domínio ou da persistência de quem seja seu protagonista [seu agente].

Resumindo: a viagem é a decisão antes de ir.

Entre as rotas de jornadas coloridas, há espaços de sustentação que, muito convencionalmente, ora são brancos ou negros. Nem sempre são buracos vazios ou absolutamente cheios; por vezes são somente aparências, linhas movediças, terrenos fortuitos.

“e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso e aqui meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa não é a viagem mas o começo…”

Os lugares obrigam a que se percorram caminhos; ou, pelo menos, que se tome a iniciativa de defrontar, de achar caminhos. Curioso que, para que se vejam os lugares, haja que ir perdendo sucessivamente pequenos, ínfimos secções de lugares, indo ao longo de corredores (ideias ou matérias), serpenteando ou a direito. De todos modos – e como venho repetindo (algo obsessivamente) de há tempos a esta parte do tempo: “caminhos, nomadismo “à la Chatwin”, para aceder a territórios – duradoiros ou transitórios, consoante se possa ou queira.”

Voltando once and again aos caminhos externalizados, às trajectórias intimistas, desejados (ou não), que conduzem a nulle part como diria Rilke… Resta saber se tais caminhos servem para levar, para dirigir ou tão somente para esgadanhar sentidos dormentes, escapando a toda posse deliberada de lugar e não de um território assumido, possuído.

Ir pelas linhas insinuadas dos caminhos, tomando-as ou deambulando-as, não necessariamente significa peregrinar. Ir pelos caminhos supõe ensejo de, com(o) os deuses, ir desviando o tempo do seu conhecimento irreversível, ajudar ao engano, alisar as ideias e regulamentar os conflitos dentro e fora da identidade própria que se acata e domestica?

“…mesmo que já saiba que encontrar tem que ser pelo caminho daquilo que somos…”

Umas e outras linhas, umas e outras volumetrias de cor, uns e outros espaços tomados de assalto pelo gesto, pelas movimentações das ideias – virtuais, conceptuais e apercebidos – abandonam a incorporeidade gráfica de um mapa bidimensional.

Assumem uma propriedade recheada pela vontade, diligência ou teimosia, em prol de uma amarga e encantatória cartografia quase imaginária.

Assumem propósitos de profundidade e volume, seduzem perspectiva e ponto de fuga: apontam um fio de horizonte.

Os lugares, em que as linhas e cores se suspendem, também estão em trânsito: dentro de sua mesma ficção, de sua fantasmática ideia tornada real e obstinada.

Dos lugares/superfícies ficam as fotografias mentais, os esquiços, toda uma panóplia de imagens internas que não desgrudam, por mais que se queiram arrancadas para uma auto-sobrevivência cómoda, glosada pela ausência de sufoco ou revolta.

As superfícies pintadas, desenham lugares fugidios mas pujantes com a solidez de quem e quando lá se esteve, pois são lugares formatados por quem deles precisa, por quem se quer mal a si por querer bem. Evocam a nitidez literária desses lugares do dia antes, como se quis a ilha de Umberto Eco (A Ilha do dia antes): sempre e sempre lugares a refazer, vividos no tempo mítico de uma vida que tem um fim, que vai no termo de uma fluidez linear.

“Neste desespero ansioso de que o tempo dure
um pouco mais, não corra tanto, se não escape
não por entre os dedos, mas através da própria forma das coisas…”

Estas pinturas residem, reganham lugares em que o corpo se habitua a estar e outros em que quereria insistir. Há, ainda, os lugares em que o corpo quer fugir daí, de lá; há os lugares de onde o corpo e a alma querem continuar, quando são obrigados a vaguear, sem força ou persistência.

“…somewhere i have never travelled,gladly beyond
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which I cannot touch because they are too near…”

O corpo, nesta série de pinturas, está aparentemente ausente. Mas, constata-se ingenuamente que serviu de receptáculo e fuga; que foi usado com cumplicidade e que provocou devaneios laterais. Externaliza-se, fisicaliza-se através de marginalidade intrínseca, escapando-se pelo dinamismo combinatório da matéria, da linha, do gesto e, apenas, porque a alma — que se saiba — não se vê… Não se vê, pois Walter Benjamin nos fez perceber que as auras fugiram para outros céus: e as auras talvez pudessem ser o que de mais parecido com almas visíveis (redemoinhos de linhas e cores) se tem no humano… Tampouco queremos assomos, ímpetos ou suspeitas (excessivas) de sublimidade porque é desmesurado conceito a fazer-nos sentir ínfimos — quer no corpo, quer na alma:

“Que desproporção” – cogitou ele – “entre todos estes corpos que se deslocam, referências visíveis de cada pessoa, e a multiplicidade dos sonhos e dos pensamentos. Nenhum desespero, nenhuma volúpia inscreve um sinal, nem no corpo dos que experimentam, nem no mundo ao seu redor.”

O corpo exerceu-se — desde sempre — como alvo (e modelo) de exploração inesgotável para qualquer artista que se prezasse. E com Pollock, Tàpies ou Klein, resolveu-se como todo em obra (espécie de “gesammkunstwerk”), cumprindo respeitosamente objectivos diferenciados e complementadores, num contexto historiográfico da Arte – para não mencionar todos os autores mais directamente associados às vertentes do happening e da performance art.

O artista vê-se a si, vê-se aos outros, vê-se nos outros, em modalidades cifradas, quase gerando essa caligrafia exclusiva, promovida pela vontade de agir, de possuir. Toma-os (actos, ideias e produtos) como seus: escolhe-os, designa-os, domina-os e depois perde-os, mesmo que não se aperceba de causas e consequências. Os corpos dos outros apoderam-se das obras através de formas (apenas, reafirme-se) simuladamente aleatórias. Trazidos na integridade do conhecimento tornado possível pelo artista, revelam-se em modalidades e fragmentos que ora assustam, ora indiferenciam emoções, e sobretudo o auxiliam enquanto indivíduo, pois lhe consentem (ou pelo menos propiciam) a descoberta de si.

Através da concretização de poses, gestos e movimentos, o corpo enquanto linha sinuosa e densa, evidencia a sua razão, mesmo quando mascara a sua feição; oculta o desígnio ou obstaculiza as acções. O gesto é um movimento gerador de visibilidade que torna mais acessível o meio – sujeito individual enquanto tal.

Se o nosso corpo, em si mesmo, não é senão um centro de acção comum dos nossos sentidos – se nós possuímos o domínio dos nossos sentidos – se os podemos fazer agir à vontade – se os podemos centrar em comunidade, então não depende senão de nós darmos a nós próprios o corpo que queremos.

O corpo como sujeito e acto destas pinturas assegura as qualificações: é atlético; é espontâneo; é quantitativo; é forma que possibilita a arte dos gestos e dos movimentos com a intenção de constituir um código, passível de ser interpretado como tal, reafirmando, com propriedade, as afirmações de Paul Valéry…

De nit! I obrir camins amb el pinzell,
Com si em cridés a perdre’m i a vegades…”

 

Mª de Fátima Lambert (porto, madrid, porto) fevereiro de 2005

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